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Há cerca de uns quarenta anos, fiz uma longa caminhada a pé por altitudes absolutamente desconhecidas dos turistas, nessa muito antiga região dos Alpes que penetra na Provença. Esta região está delimitada a sudoeste e a sul pelo curso médio do Durance, entre Sisteron e Mirabeau; a norte pelo curso superior do Drôme, desde a sua nascente até ao rio Die; a oeste pelas planícies de Comtat Venaissin e os contrafortes de Mont-Ventoux. Compreende toda a parte norte da região dos Baixos Alpes, o sul da Drôme e um pequeno enclave de Vaucluse. Era, na altura em que empreendi o meu longo passeio por estes desertos, terreno nu e monótono até aos 1200 a 1300 metros de altitude. Nada lá crescia a não ser alfazemas selvagens. Atravessei esta região na sua maior largura e depois de três dias de marcha, encontrei-me face a uma desolação exemplar. Acampei ao lado de um esqueleto de aldeia abandonada. Já não tinha mais água e eu precisava de encontrar alguma. Estas casas aglomeradas, em ruínas como um velho ninho de vespas, fizeram-me pensar que deveria ter havido ali, em tempos, uma fonte ou poço. E sim, havia uma fonte, mas seca. As cinco ou seis casas, sem telhado, roídas de vento e de chuva e a pequena capela com o sino em colapso, estavam alinhadas como as casas e capelas nas aldeias vivas, mas toda a vida tinha desaparecido. Era um belo dia de Junho, muito solarengo, mas sobre estas terras sem abrigo e a tocar o céu, o vento soprava com uma brutalidade insuportável. Os seus grunhidos nas carcaças das casas eram os de uma fera perturbada durante a sua refeição. Tive que levantar o acampamento. A cinco horas de marcha ainda não tinha encontrado água e nada me dava a esperança de a encontrar. Por todo lado a mesma secura, as mesmas ervas lenhosas. Ao longe apercebi-me de uma pequena silhueta negra, de pé. Tomei-a por um tronco de árvore solitário. Um pouco ao acaso dirigi-me para ela. Era um pastor. Uma trintena de ovelhas, deitadas sobre a terra escaldante, repousavam perto dele. Deu-me de beber do seu cantil, e um pouco mais tarde conduziu-me ao redil, numa ondulação do planalto. Retirava a sua água - excelente - de uma nascente natural, muito profunda, sobre a qual tinha instalado um guincho rudimentar. Este homem falava pouco. É comum, entre os solitários, mas era seguro de si e confiante nessa segurança. Era insólito, nesta terra despojada de tudo. Não habitava uma cabana, mas uma verdadeira casa de pedra onde se podia ver como o seu esforço pessoal tinha remendado a ruína que tinha encontrado à sua chegada. O telhado era sólido e estanque. O vento que o fustigava fazia sobre as telhas o ruído do mar na praia. A sua casa estava em ordem, a louça lavada, o soalho varrido, o fuzil oleado; a sopa borbulhava na lareira. Reparei também que estava bem barbeado, que todos os seus botões estavam solidamente cosidos, que as suas roupas estavam remendadas com o cuidado minucioso que torna os remendos invisíveis. Fez-me partilhar a sua sopa e quando lhe ofereci tabaco, disse-me que não fumava. O seu cão, silencioso como ele, era amigável, sem ser bajulador. Decidiu-se que eu passaria lá a noite; a aldeia mais próxima ainda estava a mais de um dia e meio de marcha. E eu conhecia perfeitamente o caráter das raras aldeias desta região. Há umas quatro ou cinco, dispersas, longe umas das outras, sobre os flancos destas alturas, nos bosques de carvalhos brancos, nas extremidades dos caminhos transitáveis. São habitadas por madeireiros, que fazem carvão. São lugares onde se vive mal. As famílias lutam umas contras as outras, num clima que é de uma rudeza excessiva, seja no Verão ou no Inverno, e que exacerba o egoísmo. A ambição irracional torna-se desmesurada, num desejo contínuo de sair dali. Os homens levam o carvão à cidade com os seus camiões e depois voltam. As mais sólidas qualidades vergam sob este perpétuo duche escocês. As mulheres destilam ressentimentos. Há concorrência para tudo, seja pela venda do carvão, ou pelo banco da igreja, pelas virtudes que disputam entre elas, pelos vícios que disputam entre eles e pela livre circulação de vícios e virtudes, sem descanso. Também lá o vento não repousa, irritando os nervos. Há epidemias de suicídios e numerosos casos de loucura, quase sempre mortais. O pastor que não fumava foi procurar um pequeno saco e espalhou na mesa um monte de bolotas. Pôs-se a examiná-las, uma após outra, com muita atenção, separando as boas das más. Eu fumava o meu cachimbo. Propus-me ajudá-lo. Ele disse-me que a tarefa era sua. De facto: vendo o cuidado que punha nesta tarefa, não insisti. Foi toda a nossa conversa. Quando ele tinha separado, para o lado das boas, um monte de bolotas bastante grande, juntou-as em montes de dez. E fazendo isto eliminou ainda as mais pequenas, ou as que estavam fendidas ligeiramente, pois agora examinava-as ainda com mais atenção. Quando tinha à frente dele um cento de glandes perfeitas, parou e fomos deitar-nos. A convivência com este homem dava paz. Pedi-lhe, no dia seguinte, permissão para descansar todo o dia junto dele. Ele achou isso natural, ou mais exatamente, deu-me a impressão de que nada o perturbaria. Este repouso não era absolutamente obrigatório, mas eu estava intrigado e queria saber mais. Fez sair o seu rebanho e levou-o à pastagem. Antes de partir, mergulhou num balde de água o pequeno saco onde tinha colocado as bolotas cuidadosamente escolhidas e contadas. Reparei que em jeito de bastão, ele transportava uma barra de ferro da espessura de um polegar e com cerca de metro e meio de comprimento. Fiz como se vagueasse em repouso e segui uma rota paralela à sua. A pastagem dos seus animais era no fundo de um vale. Deixou o pequeno rebanho à guarda do cão e subiu para o lugar onde eu estava. Tive algum receio que viesse para me repreender da minha indiscrição, mas não: era o seu caminho e convidou-me a acompanhá-lo se não tivesse melhor que fazer. Ia a duzentos metros dali, para o cume. Chegados ao seu destino, pôs-se a furar a terra com o seu bastão de ferro. Fazia um buraco no qual colocava uma glande, depois cobria-o. Plantava carvalhos. Perguntei-lhe se a terra lhe pertencia. Respondeu-me que não. Sabia de quem era? Ele não sabia. Supunha que seria terra baldia, ou talvez fosse propriedade de alguém que não se importasse? Ele não se importava de não conhecer os proprietários. E plantou assim um cento de bolotas com um cuidado extremo. Depois da refeição do meio-dia, recomeçou a escolher as sementes. Acho que coloquei tanta insistência nas minhas perguntas que ele respondeu. Desde há três anos que plantava árvores nesta solidão. Já tinha plantado cem mil. Dessas, vinte mil tinham vingado. Das vinte mil contava perder metade, devido aos roedores ou a tudo quanto seja impossível de prever nos desígnios da providência. Sobrariam dez mil carvalhos que iriam crescer nesta região onde antes nada existia. Foi nesta altura que me perguntei sobre a idade deste homem. Tinha visivelmente mais de cinquenta anos. Cinquenta e cinco, disse-me ele. Chamava-se Elzéard Bouffier. Tinha possuído uma quinta na planície. Tinha feito a sua vida. Perdeu o filho único, depois a esposa. Retirou-se para a solidão onde tirava prazer de viver lentamente, com as suas ovelhas e o seu cão. Ele tinha concluído que esta região morria por falta de árvores. Acrescentou que como não tinha tarefas muito importantes, tinha resolvido remediar este estado de coisas. Levando eu próprio nessa altura, apesar da minha jovem idade, uma vida solitária, sabia tocar com delicadeza as almas dos solitários. No entanto cometi um erro. Precisamente a minha jovem idade me forçava a imaginar o futuro em função de mim próprio e de uma certa busca de felicidade. Disse-lhe que em trinta anos esses dez mil carvalhos seriam magníficos. Respondeu-me simplesmente que, se Deus lhe permitisse viver, dentro de trinta anos já teria plantado tantas outras que estas dez mil não seriam mais do que uma gota de água no oceano. Ele já estudava a reprodução das faias e tinha perto de sua casa um viveiro. As plantinhas, que tinha protegido das suas ovelhas por uma barreira de rede, eram belíssimas. Disse-me que também estava a pensar em bétulas para as zonas mais profundas, onde me disse que uma certa umidade dormia a alguns metros abaixo da superfície. Separámo-nos no dia seguinte. No ano seguinte começou a guerra de 14 e fui engajado durante cinco anos. Um soldado de infantaria não podia pensar em árvores. Para dizer a verdade, a coisa em si não me tinha marcado profundamente: tinha-a considerado como uma diversão, uma coleção de selos, e esqueci-a. Saído da guerra tive direito a um prêmio de desmobilização minúsculo, e um grande desejo de respirar um pouco de ar puro. Foi sem outra ideia pré-concebida - excepto esta - que retomei o caminho destas regiões desertas. A região não tinha mudado. No entanto, para além da aldeia morta, percebi ao longe uma espécie de névoa cinzenta que recobria as alturas como um tapete. Desde a véspera, tinha-me posto a pensar no pastor que plantava árvores. « Dez mil carvalhos, dizia eu, devem ocupar um espaço muito grande. ». Tinha visto morrer tanta gente durante os cinco anos que podia imaginar facilmente a morte de Elzéar Bouffier, até porque, quando temos vinte anos, consideramos que os homens de cinquenta são velhos a quem já nada resta senão morrer. Ele não estava morto. Estava ainda muito ágil. E tinha mudado de profissão. Já só tinha quatro ovelhas, mas possuía agora uma centena de colmeias. Tinha-se desembaraçado do rebanho que punha em perigo as suas plantações de árvores. Porque, disse ele (e eu verifiquei) que não se tinha preocupado muito com a guerra. Tinha continuado imperturbavelmente a plantar. Os carvalhos de 1910 tinham agora dez anos e estavam mais altos que eu e ele. O espetáculo era impressionante. Eu estava literalmente privado de palavras e como ele não falava, passamos todo o dia em silêncio a passear na floresta. Ela tinha, em três secções, onze quilômetros de comprimento e três quilômetros na maior largura. Se tudo tinha saído das mãos deste homem - sem meios técnicos - compreende-se que os homens possam ser tão eficazes quanto Deus em domínios que não a destruição. Tinha perseguido a sua ideia e as faias que me chegavam aos ombros, a perder de vista eram prova disso. Os carvalhos eram grossos e já tinham ultrapassado a idade em que estavam à mercê dos roedores; quanto aos desígnios da Providência, para destruir a obra criada ela precisaria agora de recorrer aos ciclones. Mostrou-me admiráveis bosques de vidoeiros que tinham já cinco anos, eram de 1915, da época em que eu combatia em Verdun. Plantou-as em todas as zonas mais fundas onde supunha, com razão, que havia umidade à flor da terra. Eram tenras como jovens, e muito decididas. A criação parecia, aliás, operar em cadeia. Ele não se importava com isso e prosseguia obstinadamente a sua tarefa, muito simplesmente. Mas a descer para a aldeia, vi correr água nos regatos que estavam secos desde que havia memória. Foi a mais formidável operação de reação que me foi dado ver. Estes riachos tinham tido água em tempos antigos. Algumas destas aldeias tristes de que vos falei no início foram construídas sobre antigas aldeias galo-romanas de que subsistiam ainda alguns traços, nas quais os arqueólogos tinham encontrado anzóis em lugares onde no século vinte seria necessário o recurso a cisternas para ter um pouco de água. O vento também dispersava algumas sementes. Ao mesmo tempo que a água reaparecia, reapareciam os salgueiros, os choupos, os prados, os jardins e as flores e uma certa razão de viver. Mas a transformação operava-se tão lentamente que entrava no hábito, sem provocar espanto. Os caçadores, que subiam à solidão, à procura de lebres ou javalis, já tinham constatado a abundância de pequenas árvores, mas atribuíam isso à magia natural da terra. É por isso que ninguém havia tocado no trabalho deste homem. Se houvesse alguma suspeita, tê-lo-iam contrariado. Era inimaginável. Quem poderia pensar, nessas aldeias e na administração, uma tal obstinação na generosidade mais magnífica? A partir de 1920, nunca mais passei um ano sem visitar Elzéard Bouffier. Nunca o vi hesitar ou duvidar. Só Deus saberá, pois o próprio Deus ali cresce! Não contabilizei os seus problemas. Podemos imaginar que para este resultado teve que vencer a adversidade; que para assegurar a vitória de uma tal paixão, teve que lutar contra o desespero. Ele tinha, durante um ano, plantado dez mil bordos. Morreram todos. No ano seguinte, abandonou os bordos para retomar as faias, que se desenvolviam melhor que os carvalhos. Para dar uma ideia da singularidade desta pessoa, é preciso não esquecer que ele trabalhava numa solidão absoluta; tão absoluta que para o final da sua vida tinha perdido o hábito de falar. Ou talvez não visse nisso qualquer necessidade? Em 1933, recebeu a visita de um guarda-florestal atônito. Este funcionário intimou-o a não fazer fogo fora de casa, para não colocar em perigo o crescimento desta floresta natural. Era a primeira vez, disse-lhe este homem ingênuo, que se via uma floresta nascer sozinha. Nesta altura ele ia plantar faias a 12 kilómetros de sua casa. Para evitar o trajeto de ida e volta - pois agora ele já tinha setenta e cinco anos - pensou construir uma cabana de pedra nos locais das suas plantações. Um ano mais tarde tinha-o feito. Em 1935, uma verdadeira delegação administrativa veio examinar a «floresta natural». Havia uma alta figura dos serviços de Águas e Florestas, um deputado, vários técnicos. Pronunciaram-se muitas palavras inúteis. Decidiu-se que se iria fazer qualquer coisa e, felizmente, não se fez nada senão a única coisa útil: pôr a floresta sob salvaguarda do Estado e interditar que se fizesse carvão. Porque era impossível não ser subjugado pela beleza destas jovens árvores em pleno crescimento. E até no deputado ela exerceu o seu poder de sedução. Eu tinha um amigo entre os representantes dos serviços florestais que foram na delegação. Expliquei-lhe o mistério. Um dia, na semana seguinte, fomos ambos à procura de Elzéard Bouffier. Encontramo-lo em pleno trabalho, a vinte kilómetros de onde a inspeção tinha estado. Este guarda-florestal era meu amigo por alguma razão. Conhecia o valor das coisas. Soube permanecer silencioso. Ofereci os ovos que tinha levado de presente. Partilhamos o lanche entre os três e algumas horas passaram na contemplação muda da paisagem. A encosta de onde vínhamos estava coberta de árvores com seis a sete metros de altura. Lembrei-me do aspecto do campo em 1913: o deserto... o trabalho pacífico e continuado, o ar vivo da altitude, a frugalidade e sobretudo a serenidade da alma, tinham dado a este velho uma santidade quase solene. Era um atleta de Deus. Perguntei-me quantos hectares ele iria cobrir ainda de árvores. Antes de partir, o meu amigo fez simplesmente uma breve sugestão acerca de certas espécies às quais o terreno onde estávamos parecia convir. Mas não insistiu. «Por uma boa razão, disse-me ele mais tarde, pois este homem sabe mais do que eu.» Ao fim de uma hora de marcha - a ideia tinha feito o caminho com ele - acrescentou: «Ele sabe mais que qualquer pessoa. Encontrou um meio de ser feliz!» Foi graças a este meu amigo que não só a floresta, mas a felicidade deste homem foram protegidas. Fez nomear três guardas florestais para sua proteção e aterrorizou-os de tal modo que eles foram sempre insensíveis a todas as garrafas de vinho que os madeireiros pudessem propor. A obra só correu um risco grave durante a guerra de 1939. Os automóveis circulavam a gasogênio, e não havia matas que chegassem - Começaram a fazer-se cortes nos carvalhos de 1910, mas esta zona era tão longe das estradas circuláveis que a empresa se revelou um desastre financeiro. Foi abandonada. O pastor já nada viu. Estava a trinta quilômetros dali, continuando pacificamente o seu trabalho, ignorando a guerra de 39 como tinha ignorado a de 14. Vi Elzéard Bouffier pela última vez em Junho de 1945. Tinha na altura oitenta e sete anos. Tomei de novo a estrada do deserto, mas agora, apesar da devastação em que a guerra tinha deixado o país, havia um carro que fazia o serviço entre o vale do Durance e a montanha. Achei que tinha sido este meio de transporte relativamente rápido que me tinha impedido de reconhecer os locais dos meus antigos passeios. Também me pareceu que o itinerário tinha passado por locais novos. Precisei de um nome de uma aldeia para concluir que estava mesmo nesta região outrora tão arruinada e desolada. O carro deixou-me em Vergons. Em 1913, este casal de dez ou doze habitações tinha três habitantes. Eram selvagens, detestavam-se, viviam da caça com armadilhas: um pouco no estado físico e moral dos homens da pré-história. As urtigas cresciam em volta das casas abandonadas. A sua condição era de desespero. Só lhes faltava esperar a morte: situação que não dispõe à virtude. Tudo estava mudado. O próprio ar. Em lugar do vento seco e brutal que me tinha acolhido nesse tempo, soprava uma brisa suave carregada de aromas. Um ruído semelhante ao da água descia das alturas: era o do vento na floresta. Enfim, a coisa mais espantosa, foi ouvir o verdadeiro barulho da água correndo para uma bacia. Tinham feito uma fonte, e ela era abundante e, aquilo que mais me tocou, tinham plantado ao pé dela uma tília que devia ter quatro anos, já crescida, símbolo incontestável de uma ressurreição. Além disso, Vergons tinha os traços de trabalho para o qual era necessário esperança. A esperança tinha renascido. Tinham-se limpo as ruínas, deitado abaixo os muros quebrados e reconstruído cinco casas. O casal contava agora com vinte e oito habitantes, e quatro novas famílias. As casas novas, rebocadas de fresco, eram rodeadas de hortas e jardins, misturados mas alinhados, os legumes e as flores, as couves e as roseiras, as pereiras e as bocas-de-lobo, a salsa e as anémonas. Era um lugar onde apetecia morar. A partir daí, fiz o meu caminho a pé. A guerra de que saíramos com dificuldade não tinha permitido o completo desenvolvimento da vida, mas Lázaro tinha saído do túmulo. Sobre os flancos mais baixos da montanha havia campos de cevada e centeio; ao fundo dos vales estreitos verdejavam prados. Não foram precisos mais de oito anos para que toda a região resplandecesse de saúde. Sobre as ruínas que eu tinha visto em 1913, elevam-se agora limpas fazendas, que denotam uma vida feliz e confortável. As velhas nascentes, alimentadas pela chuva e pela neve que a floresta retinha, puseram-se de novo a correr. Canalizaram-se as águas. Ao lado de cada quinta, nos bosques de bordos, as bacias das fontes transbordam para tapetes de menta fresca. As aldeias foram reconstruídas pouco a pouco. Uma população vinda das planícies onde a terra se vende cara, fixou-se na região e trouxe juventude, movimento, espírito de aventura. Pelos caminhos, encontram-se homens e mulheres bem nutridos, rapazes e raparigas que sabem rir e retomou-se o gosto das festas camponesas. Se olharmos para a antiga população, irreconhecível desde que vive em abundância e somarmos os recém-chegados, mais de dez mil pessoas devem a sua felicidade a Elzéard Bouffier. Quando penso que um só homem, reduzido aos mais simples recursos físicos e morais passou, para fazer surgir do deserto esta região de Canaã, acho que apesar de tudo, a condição humana é admirável. Mas quando eu levo em conta toda a magnanimidade da dedicação abnegada, toda a generosidade para obter tal resultado, sou tomado por um imenso respeito por este velho camponês sem cultura que soube levar a cabo esta obra digna de Deus.
Elzéard Bouffier faleceu pacificamente em 1947 no hospício de Banon.
Título: "L'Homme qui plantait dês arbres"
Autor: Jean Giono
Tradução: Alice Sarabando
O leitor competente:
- Sabe buscar textos de acordo com seu horizonte de expectativas, selecionando obras a partir de suas preferências;
- Conhece locais em que os livros e demais materiais de leitura se encontram (bibliotecas, salas de leitura, livrarias, editoras, etc);
- Frequenta espaços de mediadores de leitura (lançamentos, exposições, palestras, encontros com escritores);
- Identifica livros e outros materiais nas estantes, sabendo procurar o que lhe interessa;
- Localiza dados na obra (editora, local, data de publicação, prefácio, sumário, índice);
- Segue as pistas da leitura oferecidas pelo autor;
- Reconhece a estrutura da obra e preenche os vazios de acordo com a sua maturidade leitora e existencial;
- É capaz de dialogar com novos textos, posicionando-se criticamente diante deles;
- Troca impressões e informações com outros leitores;
- Integra-se em grupos de leitores e se expressa em diferentes linguagens o que leu;
- Conhece e se posiciona diante da crítica de livros lidos;
- É receptivo a novos textos, alargando seu gosto pela leitura e seu leque de preferências;
- Amplia seu horizonte de expectativas por meio de leitura desafiadora; têm consciência do seu crescimento como leitor e como ser humano, propiciado pela leitura.
COSTA, Marta Morais da, Metodologia do ensino da literatura infantil, Curitiba: Ibpex, 2007.
Fonte: Livros e afins
Os senhores todos conhecem a pergunta famosa universalmente repetida: "Que livro
escolheria para levar consigo, se tivesse de partir para uma ilha deserta...?"
Vêm os que acreditam em exemplos célebres e dizem naturalmente: "Uma história de Napoleão." Mas uma ilha deserta nem sempre é um exílio... Pode ser um passatempo...
Os que nunca tiveram tempo para fazer leituras grandes, pensam em obras de muitos volumes. É certo que numa ilha deserta é preciso encher o tempo... E lembram-se das Vidas de Plutarco, dos Ensaios de Montaigne, ou, se são mais cientistas que filósofos, da obra completa de Pasteur. Se são uma boa mescla de vida e sonho, pensam em toda a produção de Goethe, de Dostoievski, de Ibsen. Ou na Bíblia. Ou nas Mil e uma noites.
Pois eu creio que todos esses livros, embora esplêndidos, acabariam fatigando; e, se Deus me concedesse a mercê de morar numa ilha deserta (deserta, mas com relativo conforto, está claro — poltronas, chá, luz elétrica, ar condicionado) o que levava comigo era um Dicionário. Dicionário de qualquer língua, até com algumas folhas soltas; mas um Dicionário.
Não sei se muita gente haverá reparado nisso — mas o Dicionário é um dos livros mais poéticos, se não mesmo o mais poético dos livros. O Dicionário tem dentro de si o Universo completo.
Logo que uma noção humana toma forma de palavra — que é o que dá existência ás noções — vai habitar o Dicionário. As noções velhas vão ficando, com seus sestros de gente antiga, suas rugas, seus vestidos fora de moda; as noções novas vão chegando, com suas petulâncias, seus arrebiques, às vezes, sua rusticidade, sua grosseria. E tudo se vai arrumando direitinho, não pela ordem de chegada, como os candidatos a lugares nos ônibus, mas pela ordem alfabética, como nas listas de pessoas importantes, quando não se quer magoar ninguém...
O Dicionário é o mais democrático dos livros. Muito recomendável, portanto, na atualidade. Ali, o que governa é a disciplina das letras. Barão vem antes de conde, conde antes de duque, duque antes de rei. Sem falar que antes do rei também está o presidente.
O Dicionário responde a todas as curiosidades, e tem caminhos para todas as filosofias. Vemos as famílias de palavras, longas, acomodadas na sua semelhança, — e de repente os vizinhos tão diversos! Nem sempre elegantes, nem sempre decentes, — mas obedecendo á lei das letras, cabalística como a dos números...
O Dicionário explica a alma dos vocábulos: a sua hereditariedade e as suas mutações.
E as surpresas de palavras que nunca se tinham visto nem ouvido! Raridades, horrores, maravilhas...
Tudo isto num dicionário barato — porque os outros têm exemplos, frases que se podem decorar, para empregar nos artigos ou nas conversas eruditas, e assombrar os ouvintes e os leitores...
A minha pena é que não ensinem as crianças a amar o Dicionário. Ele contém todos os gêneros literários, pois cada palavra tem seu halo e seu destino — umas vão para aventuras, outras para viagens, outras para novelas, outras para poesia, umas para a história, outras para o teatro.
E como o bom uso das palavras e o bom uso do pensamento são uma coisa só e a mesma coisa, conhecer o sentido de cada uma é conduzir-se entre claridades, é construir mundos tendo como laboratório o Dicionário, onde jazem, catalogados, todos os necessários elementos.
Eu levaria o Dicionário para a ilha deserta. O tempo passaria docemente, enquanto eu passeasse por entre nomes conhecidos e desconhecidos, nomes, sementes e pensamentos e sementes das flores de retórica.
Poderia louvar melhor os amigos, e melhor perdoar os inimigos, porque o mecanismo da minha linguagem estaria mais ajustado nas suas molas complicadíssimas. E sobretudo, sabendo que germes pode conter uma palavra, cultivaria o silêncio, privilégio dos deuses, e ventura suprema dos homens.
Vêm os que acreditam em exemplos célebres e dizem naturalmente: "Uma história de Napoleão." Mas uma ilha deserta nem sempre é um exílio... Pode ser um passatempo...
Os que nunca tiveram tempo para fazer leituras grandes, pensam em obras de muitos volumes. É certo que numa ilha deserta é preciso encher o tempo... E lembram-se das Vidas de Plutarco, dos Ensaios de Montaigne, ou, se são mais cientistas que filósofos, da obra completa de Pasteur. Se são uma boa mescla de vida e sonho, pensam em toda a produção de Goethe, de Dostoievski, de Ibsen. Ou na Bíblia. Ou nas Mil e uma noites.
Pois eu creio que todos esses livros, embora esplêndidos, acabariam fatigando; e, se Deus me concedesse a mercê de morar numa ilha deserta (deserta, mas com relativo conforto, está claro — poltronas, chá, luz elétrica, ar condicionado) o que levava comigo era um Dicionário. Dicionário de qualquer língua, até com algumas folhas soltas; mas um Dicionário.
Não sei se muita gente haverá reparado nisso — mas o Dicionário é um dos livros mais poéticos, se não mesmo o mais poético dos livros. O Dicionário tem dentro de si o Universo completo.
Logo que uma noção humana toma forma de palavra — que é o que dá existência ás noções — vai habitar o Dicionário. As noções velhas vão ficando, com seus sestros de gente antiga, suas rugas, seus vestidos fora de moda; as noções novas vão chegando, com suas petulâncias, seus arrebiques, às vezes, sua rusticidade, sua grosseria. E tudo se vai arrumando direitinho, não pela ordem de chegada, como os candidatos a lugares nos ônibus, mas pela ordem alfabética, como nas listas de pessoas importantes, quando não se quer magoar ninguém...
O Dicionário é o mais democrático dos livros. Muito recomendável, portanto, na atualidade. Ali, o que governa é a disciplina das letras. Barão vem antes de conde, conde antes de duque, duque antes de rei. Sem falar que antes do rei também está o presidente.
O Dicionário responde a todas as curiosidades, e tem caminhos para todas as filosofias. Vemos as famílias de palavras, longas, acomodadas na sua semelhança, — e de repente os vizinhos tão diversos! Nem sempre elegantes, nem sempre decentes, — mas obedecendo á lei das letras, cabalística como a dos números...
O Dicionário explica a alma dos vocábulos: a sua hereditariedade e as suas mutações.
E as surpresas de palavras que nunca se tinham visto nem ouvido! Raridades, horrores, maravilhas...
Tudo isto num dicionário barato — porque os outros têm exemplos, frases que se podem decorar, para empregar nos artigos ou nas conversas eruditas, e assombrar os ouvintes e os leitores...
A minha pena é que não ensinem as crianças a amar o Dicionário. Ele contém todos os gêneros literários, pois cada palavra tem seu halo e seu destino — umas vão para aventuras, outras para viagens, outras para novelas, outras para poesia, umas para a história, outras para o teatro.
E como o bom uso das palavras e o bom uso do pensamento são uma coisa só e a mesma coisa, conhecer o sentido de cada uma é conduzir-se entre claridades, é construir mundos tendo como laboratório o Dicionário, onde jazem, catalogados, todos os necessários elementos.
Eu levaria o Dicionário para a ilha deserta. O tempo passaria docemente, enquanto eu passeasse por entre nomes conhecidos e desconhecidos, nomes, sementes e pensamentos e sementes das flores de retórica.
Poderia louvar melhor os amigos, e melhor perdoar os inimigos, porque o mecanismo da minha linguagem estaria mais ajustado nas suas molas complicadíssimas. E sobretudo, sabendo que germes pode conter uma palavra, cultivaria o silêncio, privilégio dos deuses, e ventura suprema dos homens.
Cecília Meireles
Texto extraído do livro "Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 270.
Fonte: Releituras
Antigamente, as moças
chamavam-se mademoiselles e eram todas mimosas e muito
prendadas. Não faziam anos: completavam primaveras,
em geral dezoito. Os janotas, mesmo não sendo rapagões, faziam-lhes
pé-de-alferes, arrastando a asa, mas ficavam longos meses debaixo do
balaio. E se levavam tábua, o remédio era tirar o cavalo da chuva e ir
pregar em outra freguesia. As pessoas, quando corriam, antigamente, era
para tirar o pai da forca e não caíam de cavalo magro. Algumas jogavam
verde para colher maduro, e sabiam com quantos paus se faz uma canoa. O
que não impedia que, nesse entrementes, esse ou aquele embarcasse em canoa
furada. Encontravam alguém que lhes passasse a manta e azulava, dando às
de vila-diogo. Os mais idosos, depois da janta, faziam o quilo, saindo
para tomar fresca; e também tomavam cautela de não apanhar sereno. Os mais
jovens, esses iam ao animatógrafo, e mais tarde ao cinematógrafo, chupando
balas de altéia. Ou sonhavam em andar de aeroplano; os quais, de pouco
siso, se metiam em camisa de onze varas, e até em calças pardas; não
admira que dessem com os burros n’água.
Havia os que tomaram chá em criança, e, ao visitarem família da maior consideração, sabiam cuspir dentro da escarradeira. Se mandavam seus respeitos a alguém, o portador garantia-lhes: “Farei presente.” Outros, ao cruzarem com um sacerdote, tiravam o chapéu, exclamando: “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo”, ao que o Reverendíssimo correspondia: “Para sempre seja louvado.” E os eruditos, se alguém espirrava — sinal de defluxo — eram impelidos a exortar: “Dominus tecum”. Embora sem saber da missa a metade, os presunçosos queriam ensinar padre-nosso ao vigário, e com isso metiam a mão em cumbuca. Era natural que com eles se perdesse a tramontana. A pessoa cheia de melindres ficava sentida com a desfeita que lhe faziam, quando, por exemplo, insinuavam que seu filho era artioso. Verdade seja que às vezes os meninos eram mesmo encapetados; chegavam a pitar escondido, atrás da igreja. As meninas, não: verdadeiros cromos, umas tetéias.
Antigamente, certos tipos faziam negócios e ficavam a ver navios; outros eram pegados com a boca na botija, contavam tudo tintim por tintim e iam comer o pão que o diabo amassou, lá onde Judas perdeu as botas. Uns raros amarravam cachorro com lingüiça. E alguns ouviam cantar o galo, mas não sabiam onde. As famílias faziam sortimento na venda, tinham conta no carniceiro e arrematavam qualquer quitanda que passasse à porta, desde que o moleque do tabuleiro, quase sempre um cabrito, não tivesse catinga. Acolhiam com satisfação a visita do cometa, que, andando por ceca e meca, trazia novidades de baixo, ou seja, da Corte do Rio de Janeiro. Ele vinha dar dois dedos de prosa e deixar de presente ao dono da casa um canivete roscofe. As donzelas punham carmim e chegavam à sacada para vê-lo apear do macho faceiro. Infelizmente, alguns eram mais do que velhacos: eram grandessíssimos tratantes.
Acontecia o indivíduo apanhar constipação; ficando perrengue, mandava o próprio chamar o doutor e, depois, ir à botica para aviar a receita, de cápsulas ou pílulas fedorentas. Doença nefasta era a phtysica, feia era o gálico. Antigamente, os sobrados tinham assombrações, os meninos lombrigas, asthma os gatos, os homens portavam ceroulas, botinas e capa-de-goma, a casimira tinha de ser superior e mesmo X.P.T.O. London, não havia fotógrafos, mas retratistas, e os cristãos não morriam: descansavam.
Mas tudo isso era antigamente, isto é, outrora.
Havia os que tomaram chá em criança, e, ao visitarem família da maior consideração, sabiam cuspir dentro da escarradeira. Se mandavam seus respeitos a alguém, o portador garantia-lhes: “Farei presente.” Outros, ao cruzarem com um sacerdote, tiravam o chapéu, exclamando: “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo”, ao que o Reverendíssimo correspondia: “Para sempre seja louvado.” E os eruditos, se alguém espirrava — sinal de defluxo — eram impelidos a exortar: “Dominus tecum”. Embora sem saber da missa a metade, os presunçosos queriam ensinar padre-nosso ao vigário, e com isso metiam a mão em cumbuca. Era natural que com eles se perdesse a tramontana. A pessoa cheia de melindres ficava sentida com a desfeita que lhe faziam, quando, por exemplo, insinuavam que seu filho era artioso. Verdade seja que às vezes os meninos eram mesmo encapetados; chegavam a pitar escondido, atrás da igreja. As meninas, não: verdadeiros cromos, umas tetéias.
Antigamente, certos tipos faziam negócios e ficavam a ver navios; outros eram pegados com a boca na botija, contavam tudo tintim por tintim e iam comer o pão que o diabo amassou, lá onde Judas perdeu as botas. Uns raros amarravam cachorro com lingüiça. E alguns ouviam cantar o galo, mas não sabiam onde. As famílias faziam sortimento na venda, tinham conta no carniceiro e arrematavam qualquer quitanda que passasse à porta, desde que o moleque do tabuleiro, quase sempre um cabrito, não tivesse catinga. Acolhiam com satisfação a visita do cometa, que, andando por ceca e meca, trazia novidades de baixo, ou seja, da Corte do Rio de Janeiro. Ele vinha dar dois dedos de prosa e deixar de presente ao dono da casa um canivete roscofe. As donzelas punham carmim e chegavam à sacada para vê-lo apear do macho faceiro. Infelizmente, alguns eram mais do que velhacos: eram grandessíssimos tratantes.
Acontecia o indivíduo apanhar constipação; ficando perrengue, mandava o próprio chamar o doutor e, depois, ir à botica para aviar a receita, de cápsulas ou pílulas fedorentas. Doença nefasta era a phtysica, feia era o gálico. Antigamente, os sobrados tinham assombrações, os meninos lombrigas, asthma os gatos, os homens portavam ceroulas, botinas e capa-de-goma, a casimira tinha de ser superior e mesmo X.P.T.O. London, não havia fotógrafos, mas retratistas, e os cristãos não morriam: descansavam.
Mas tudo isso era antigamente, isto é, outrora.
Antigamente, os
pirralhos dobravam a língua diante dos pais, e se um se esquecia de arear
os dentes antes de cair nos braços de Morfeu, era capaz de entrar no
couro. Não devia também se esquecer de lavar os pés, sem tugir nem mugir.
Nada de bater na cacunda do padrinho, nem de debicar os mais velhos, pois
levava tunda. Ainda cedinho, aguava as plantas, ia ao corte e logo voltava
aos penates. Não ficava mangando na rua nem escapulia do mestre, mesmo que
não entendesse patavina da instrução moral e cívica. O verdadeiro smart
calçava botina de botões para comparecer todo liró ao copo-d’água, se bem
que no convescote apenas lambiscasse, para evitar flatos. Os bilontras é
que eram um precipício, jogando com pau de dois bicos, pelo que carecia
muita cautela e caldo de galinha. O melhor era pôr as barbas de molho
diante de treteiro de topete: depois de fintar e engambelar os coiós, e
antes que se pusesse tudo em pratos limpos, ele abria o arco. O diacho
eram os filhos da Candinha: quem somava a candongas acabava na rua da
amargura, lá encontrando, encafifada, muita gente na embira, que não tinha
nem para matar o bicho; por exemplo, o mão-de-defunto.
Bom era ter as costas quentes, dar as cartas com a faca e o queijo na mão; melhor ainda, ter uma caixinha de pós de perlimpimpim, pois isso evitava de levar a lata, ficar na pindaíba ou espichar a canela antes que Deus fosse servido. Qualquer um acabava enjerizado se lhe chegavam a urtiga no nariz, ou se o faziam de gato-sapato. Mas que regalo, receber de graça, no dia-de-reis, um capado! Ganhar vidro de cheiro marca barbante, isso não: a mocinha dava o cavaco. Às vezes, sem tirte nem guarte, aparecia o doutor pomada, todo cheio de nove horas; ia-se ver, debaixo de tanta farofa era um doutor da mula ruça, um pé-rapado, que espiga! E a moçoila, que começava a nutrir xodó por ele, que estava mesmo de rabicho, caía das nuvens. Quem queria lá fazer papel pança? Daí se perder as estribeiras por uma tutaméia, um alcaide que o caixeiro nos impingia, dando de pinga um cascão de goiabada.
Em compensação, viver não era sangria desatada, e até o Chico vir de baixo vosmecê podia provar uma abrideira que era o suco, ficando na chuva mesmo com bom tempo. Não sendo pexote, e soltando arame, que vida supimpa a do degas! Macacos me mordam se estou pregando peta. E os tipos que havia: o pau-para-toda-obra, o vira-casaca (este cuspia no prato em que comera), o testa-de-ferro, o sabe-com-quem-está falando, o sangue-de-barata, o Dr. Fiado que morreu ontem, o zé-povinho, o biltre, o peralvilho, o salta-pocinhas, o alferes, a polaca, o passador de nota falsa, o mequetrefe, o safardana, o maria-vai-com-as-outras... Depois de mil peripécias, assim ou assado, todo mundo acabava mesmo batendo com o rabo na cerca, ou, simplesmente, a bota, sem saber como descalçá-la.
Mas até aí morreu Neves, e não foi no Dia de São Nunca de Tarde: foi vítima de pertinaz enfermidade que zombou de todos os recursos da ciência, e acreditam que a família nem sequer botou fumo no chapéu?
Bom era ter as costas quentes, dar as cartas com a faca e o queijo na mão; melhor ainda, ter uma caixinha de pós de perlimpimpim, pois isso evitava de levar a lata, ficar na pindaíba ou espichar a canela antes que Deus fosse servido. Qualquer um acabava enjerizado se lhe chegavam a urtiga no nariz, ou se o faziam de gato-sapato. Mas que regalo, receber de graça, no dia-de-reis, um capado! Ganhar vidro de cheiro marca barbante, isso não: a mocinha dava o cavaco. Às vezes, sem tirte nem guarte, aparecia o doutor pomada, todo cheio de nove horas; ia-se ver, debaixo de tanta farofa era um doutor da mula ruça, um pé-rapado, que espiga! E a moçoila, que começava a nutrir xodó por ele, que estava mesmo de rabicho, caía das nuvens. Quem queria lá fazer papel pança? Daí se perder as estribeiras por uma tutaméia, um alcaide que o caixeiro nos impingia, dando de pinga um cascão de goiabada.
Em compensação, viver não era sangria desatada, e até o Chico vir de baixo vosmecê podia provar uma abrideira que era o suco, ficando na chuva mesmo com bom tempo. Não sendo pexote, e soltando arame, que vida supimpa a do degas! Macacos me mordam se estou pregando peta. E os tipos que havia: o pau-para-toda-obra, o vira-casaca (este cuspia no prato em que comera), o testa-de-ferro, o sabe-com-quem-está falando, o sangue-de-barata, o Dr. Fiado que morreu ontem, o zé-povinho, o biltre, o peralvilho, o salta-pocinhas, o alferes, a polaca, o passador de nota falsa, o mequetrefe, o safardana, o maria-vai-com-as-outras... Depois de mil peripécias, assim ou assado, todo mundo acabava mesmo batendo com o rabo na cerca, ou, simplesmente, a bota, sem saber como descalçá-la.
Mas até aí morreu Neves, e não foi no Dia de São Nunca de Tarde: foi vítima de pertinaz enfermidade que zombou de todos os recursos da ciência, e acreditam que a família nem sequer botou fumo no chapéu?
Carlos Drummond de Andrade
Fonte: Alguma Poesia
Salvador Dalí
De que vale ter voz
se só quando não falo é que me entendem?
De que vale acordar
se o que vivo é menos do que o que sonhei?
(VERSOS DO MENINO QUE FAZIA VERSOS)
se só quando não falo é que me entendem?
De que vale acordar
se o que vivo é menos do que o que sonhei?
(VERSOS DO MENINO QUE FAZIA VERSOS)
— Ele escreve versos!
Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha.
— Há antecedentes na família?
— Desculpe doutor?
O médico destrocou-se em tintins. Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias. Tratava bem, nunca lhe batera, mas a doçura mais requintada que conseguira tinha sido em noite de núpcias:
— Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol.
Ela hoje até se comove com a comparação: perfume de igual qualidade qual outra mulher ousa sequer sonhar? Pobres que fossem esses dias, para ela, tinham sido lua-de-mel. Para ele, não fora senão período de rodagem. O filho fora confeccionado nesses namoros de unha suja, restos de combustível manchando o lençol. E oleosas confissões de amor.
Tudo corria sem mais, a oficina mal dava para o pão e para a escola do miúdo. Mas eis que começaram a aparecer, pelos recantos da casa, papéis rabiscados com versos. O filho confessou, sem pestanejo, a autoria do feito.
— São meus versos, sim.
O pai logo sentenciara: havia que tirar o miúdo da escola. Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más companhias. Pois o rapaz, em vez de se lançar no esfrega-refrega com as meninas, se acabrunhava nas penumbras e, pior ainda, escrevia versos. O que se passava: mariquice intelectual? Ou carburador entupido, avarias dessas que a vida do homem se queda em ponto morto?
Dona Serafina defendeu o filho e os estudos. O pai, conformado, exigiu: então, ele que fosse examinado.
— O médico que faça revisão geral, parte mecânica, parte eléctrica.
Queria tudo. Que se afinasse o sangue, calibrasse os pulmões e, sobretudo, lhe espreitassem o nível do óleo na figadeira. Houvesse que pagar por sobressalentes, não importava. O que urgia era pôr cobro àquela vergonha familiar.
Olhos baixos, o médico escutou tudo, sem deixar de escrevinhar num papel. Aviava já a receita para poupança de tempo. Com enfado, o clínico se dirigiu ao menino:
— Dói-te alguma coisa?
—Dói-me a vida, doutor.
O doutor suspendeu a escrita. A resposta, sem dúvida, o surpreendera. Já Dona Serafina aproveitava o momento: Está a ver, doutor? Está ver? O médico voltou a erguer os olhos e a enfrentar o miúdo:
— E o que fazes quando te assaltam essas dores?
— O que melhor sei fazer, excelência.
— E o que é?
— É sonhar.
Serafina voltou à carga e desferiu uma chapada na nuca do filho. Não lembrava o que o pai lhe dissera sobre os sonhos? Que fosse sonhar longe! Mas o filho reagiu: longe, porquê? Perto, o sonho aleijaria alguém? O pai teria, sim, receio de sonho. E riu-se, acarinhando o braço da mãe.
O médico estranhou o miúdo. Custava a crer, visto a idade. Mas o moço, voz tímida, foi-se anunciando. Que ele, modéstia apartada, inventara sonhos desses que já nem há, só no antigamente, coisa de bradar à terra. Exemplificaria, para melhor crença. Mas nem chegou a começar. O doutor o interrompeu:
— Não tenho tempo, moço, isto aqui não é nenhuma clinica psiquiátrica.
A mãe, em desespero, pediu clemência. O doutor que desse ao menos uma vista de olhos pelo caderninho dos versos. A ver se ali catava o motivo de tão grave distúrbio. Contrafeito, o médico aceitou e guardou o manuscrito na gaveta. A mãe que viesse na próxima semana. E trouxesse o paciente.
Na semana seguinte, foram os últimos a ser atendi dos. O médico, sisudo, taciturneou: o miúdo não teria, por acaso, mais versos? O menino não entendeu.
— Não continuas a escrever?
— Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho este pedaço de vida — disse, apontando um novo caderninho — quase a meio.
O médico chamou a mãe, à parte. Que aquilo era mais grave do que se poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente.
— Não temos dinheiro — fungou a mãe entre soluços.
— Não importa — respondeu o doutor.
Que ele mesmo assumiria as despesas. E que seria ali mesmo, na sua clínica, que o menino seria sujeito a devido tratamento. E assim se procedeu.
Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto onde está internado o menino. Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração. E o médico, abreviando silêncios:
— Não pare, meu filho. Continue lendo...
— É sonhar.
Serafina voltou à carga e desferiu uma chapada na nuca do filho. Não lembrava o que o pai lhe dissera sobre os sonhos? Que fosse sonhar longe! Mas o filho reagiu: longe, porquê? Perto, o sonho aleijaria alguém? O pai teria, sim, receio de sonho. E riu-se, acarinhando o braço da mãe.
O médico estranhou o miúdo. Custava a crer, visto a idade. Mas o moço, voz tímida, foi-se anunciando. Que ele, modéstia apartada, inventara sonhos desses que já nem há, só no antigamente, coisa de bradar à terra. Exemplificaria, para melhor crença. Mas nem chegou a começar. O doutor o interrompeu:
— Não tenho tempo, moço, isto aqui não é nenhuma clinica psiquiátrica.
A mãe, em desespero, pediu clemência. O doutor que desse ao menos uma vista de olhos pelo caderninho dos versos. A ver se ali catava o motivo de tão grave distúrbio. Contrafeito, o médico aceitou e guardou o manuscrito na gaveta. A mãe que viesse na próxima semana. E trouxesse o paciente.
Na semana seguinte, foram os últimos a ser atendi dos. O médico, sisudo, taciturneou: o miúdo não teria, por acaso, mais versos? O menino não entendeu.
— Não continuas a escrever?
— Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho este pedaço de vida — disse, apontando um novo caderninho — quase a meio.
O médico chamou a mãe, à parte. Que aquilo era mais grave do que se poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente.
— Não temos dinheiro — fungou a mãe entre soluços.
— Não importa — respondeu o doutor.
Que ele mesmo assumiria as despesas. E que seria ali mesmo, na sua clínica, que o menino seria sujeito a devido tratamento. E assim se procedeu.
Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto onde está internado o menino. Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração. E o médico, abreviando silêncios:
— Não pare, meu filho. Continue lendo...
O texto acima foi extraído do livro “O fio das missangas”, Cia. das
Letras, 2004, pág. 131. A editora optou por manter a grafia do
português de Moçambique.
Fonte: Releituras
'Deficiente' é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino.
'Louco' é quem não procura ser feliz com o que possui.
'Cego' é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria, e só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.
'Surdo' é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês.
'Mudo' é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia.
'Paralítico' é quem não consegue andar na direção daqueles que precisam de sua ajuda.
'Diabético' é quem não consegue ser doce.
'Anão' é quem não sabe deixar o amor crescer. E, finalmente, a pior das deficiências é ser miserável, pois:
'Miseráveis' são todos que não conseguem falar com Deus.
' A amizade é um amor que nunca morre.. '
Mário Quintana
Um dia o rei teve uma ideia. Era a primeira da vida
toda e, tão maravilhado ficou com aquela ideia azul, que não quis saber de
contar aos ministros. Desceu com ela para o jardim, correu com ela nos
gramados, brincou com ela de esconder entre outros pensamentos,
encontrando-a sempre com alegria, linda ideia dele toda azul.
Brincaram até o rei adormecer encostado numa árvore.
Foi acordar tateando a coroa e procurando a ideia, para
perceber o perigo. Sozinha no seu sono, solta e tão bonita, a ideia poderia
ter chamado a atenção de alguém. Bastaria esse alguém pegá-la e levá-la. É
tão fácil roubar uma ideia! Quem jamais saberia que já tinha dono?
Com a ideia escondida debaixo do manto, o rei voltou
para o castelo. Esperou a noite. Quando todos os olhos se fecharam, ele saiu
dos seus aposentos, atravessou salões, desceu escadas, subiu degraus, até
chegar ao corredor das salas do tempo. Portas fechadas e o silêncio. Que
sala escolher?
Diante de cada porta o rei parava, pensava e seguia
adiante. Até chegar à sala do sono. Abriu. Na sala acolchoada, os pés do rei
afundavam até o tornozelo, o olhar se embaraçava em gases, cortinas e véus
pendurados como teias. Sala de quase escuro, sempre igual. O rei deitou a
ideia adormecida na cama de marfim, baixou o cortinado, saiu e trancou a
porta.
A chave prendeu no pescoço em grossa corrente. E nunca
mais mexeu nela.
O tempo correu seus anos. Ideias o rei não teve mais,
nem sentiu falta, tão ocupado estava em governar. Envelhecia sem perceber,
diante dos educados espelhos reais que mentiam a verdade. Apenas sentia-se
mais triste e mais só, sem que nunca mais tivesse tido vontade de brincar
nos jardins.
Só os ministros viam a velhice do rei. Quando a cabeça
ficou toda branca, disseram-lhe que já podia descansar, e o libertaram do
manto.
Posta a coroa sobre a almofada, o rei logo levou a mão
à corrente.
Ninguém mais se ocupa de mim – dizia, atravessando
salões, descendo escadas a caminho da sala do tempo. Ninguém mais me olha –
dizia. Agora, posso buscar minha linda ideia e guardá-la só para mim.
Abriu a porta, levantou o cortinado.
Na cama de marfim, a ideia dormia azul como naquele
dia.
Como naquele dia, jovem, tão jovem, uma ideia menina. E
linda. Mas o rei não era mais o rei daquele dia. Entre ele e a ideia estava
todo o tempo passado lá fora, o tempo todo parado na sala do sono. Seus
olhos não viam na ideia a mesma graça. Brincar não queria, nem rir. Que
fazer com ela? Nunca mais saberiam estar juntos como naquele dia.
Sentado na beira da cama o rei chorou suas duas últimas
lágrimas, as que tinha guardado para a maior tristeza.
Depois, baixou o cortinado e, deixando a ideia
adormecida, fechou para sempre a porta.
Moral: ideia não é para ficar adormecida, mas
para ser realizada, sob pena de se perder.
Marina Colasanti
(Extraído da obra de mesmo nome, Editora Global)
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