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10 de fevereiro de 2010

Quebra-cabeça


"Quem somos nós? É uma pergunta quase impossível de responder. 
Mas todos convimos em que o 'eu' atarefado que se ocupa nas lides cotidianas não é de todo o 'eu' real.
Bem certo estamos de que perdemos alguma coisa na pura busca do sustento.
Quando vemos uma pessoa procurando afanosamente alguma coisa num terreno, o homem sábio pode propor um quebra-cabeça para que o resolvam os espectadores:
Que perdeu essa pessoa?
Alguém supõe que foi um relógio; outro que é um broche de diamantes; e outros arriscarão respostas diversas. Depois de fracassadas todas essas respostas, o homem sábio, que na verdade não sabe o que procura a pessoa no terreno, diz aos espectadores:
'Eu vos direi. Perdeu o fôlego!' "

Lin Yutang
7 de novembro de 2009

A arte de ler II


"Não pode, pois, haver livros que a gente deva ler. Porque os nossos interesses intelectuais crescem como uma árvore ou fluem como um rio. Enquanto haja seiva adequada, há de crescer de algum modo a árvore; e enquanto haja água do manancial, o rio continuará correndo.
Não há no mundo livros que se devam ler, mas somente livros que uma pessoa deve ler em certo momento, em certo lugar, dentro de certas circunstâncias e num certo período de sua vida.
Quando os pensamentos e a experiência de uma pessoa não chegaram a certo ponto para ler uma obra -prima, esta só lhe deixará um mau sabor.
A leitura, pois, não é um ato simples; tem duas faces: o autor e o leitor. O ganho provém tanto da contribuição do leitor, por meio da sua visão íntima e da sua experiência, como do autor.
Considero o descobrimento do autor favorito de cada um como o momento definitivo da sua evolução intelectual. Há algo que se chama afinidade de espíritos, e, entre os antigos e modernos autores, devemos procurar aquele cujo espírito seja semelhante ao nosso. Só desta maneira se pode auferir real proveito da leitura. Cumpre ser independente e procurar por conta própria os mestres. Ninguém pode dizer quem será o autor favorito de cada qual; talvez nem o próprio leitor possa dizê-lo. É como o amor à primeira vista. Não se pode dizer ao leitor que ame a este ou àquele autor; mas quando se encontra com o autor a quem ama, sabe-o por uma espécie de instinto. Conhecemos casos famosos a esse respeito. Há sábios que viveram em épocas diferentes, separados por muitos séculos, mas com maneiras de pensar e de sentir tão semelhantes que, ao se encontrarem nas páginas de um livro, pareciam uma única pessoa que encontrava a própria imagem.
O descobrimento do autor faz bem, tudo é como deve ser. Dos seus livros extrai-se o sustento para a alma."
 
Lin Yutang
 
6 de novembro de 2009

A arte de ler I

 
A leitura, ou o gozo dos livros, foi sempre contada entre os encantos da vida culta e é respeitada e invejada por aqueles que raramente se concedem esse privilégio. É fácil compreendê-lo quando comparamos a diferença entre a vida de um homem que não lê e a de um homem que lê. O homem que não tem o costume de ler está aprisionado num mundo imediato, relativamente ao tempo e ao espaço. Sua vida cai numa rotina fixa; acha-se limitado ao contato e à conversação com uns poucos amigos e conhecidos, e só vê o que acontece na vizinhança imediata. Não há como escapar a tal prisão. Mas quando toma em suas mãos um livro, penetra num mundo diferente e, se o livro é bom, vê-se imediatamente em contato com um dos melhores conversadores do mundo. Tal mudança do ambiente é na verdade semelhante a uma viagem, no seu efeito psicológico. O leitor se vê levado sempre a um mundo de pensamentos e reflexões.
A leitura dá ao homem certo encanto e sabor. Quanto ao sabor da palavra, tudo depende da forma de ler. Que se tenha "sabor" ou não quando se fala, isto depende do método de leitura.Se um leitor frui sabor nos livros, demonstrará esse sabor em suas conversações, e se tem sabor em suas conversações, tê-lo-á no que escreve.
 

Lin Yutang
5 de outubro de 2009

Simplicidade


"...não importa quantas vezes um homem palmilha o mesmo caminho, a cada novo passo há sempre algo inédito."   Thoreau

Trecho do discurso feito por Thoreau em sua cerimônia de formatura em 16 de agosto de 1837:

"Este mundo curioso em que vivemos é mais prático do que seria conveniente; mais lindo do que seria prático; é mais pra ser admirado e gozado do que usado. Deveria ser ligeiramente transformada a ordem das coisas: o sétimo dia seria o do trabalho, dia de ganhar a vida com o suor do rosto; os outros seis, Sabath da alma e dos amores, nos quais passear por esses grandes jardins e beber influências suaves e as sublimes revelações da Natureza."

Outros trechos do livro:

"Nossas pernas, na realidade, percorrem muitos lugares; nossas almas é que se emboloram num canto"
Conclusão a que chega Thoreau ao perceber que o importante não era quem uma pessoa era, ou por onde viajava, mas o que era.

"O universo de cada um é apenas uma clareira na floresta: aberta, mas cercada."

"Creio na simplicidade. Surpreendo-me, e me entristeço, ao ver a quantos casos banais o homem mais sábio acha que deve dar atenção num só dia; e quantos casos extraordinários acha ser seu dever omitir... Simplifique pois o problema da vida, distinguindo o necessário e o real. Explore a terra para descobrir por onde penetram suas raízes mais fortes."

"Nossos pensamentos são épocas em nossa vida. Todo o resto não é senão um diário dos ventos que sopraram enquanto vivíamos..."

Livro: " O Rebelde de Concord" (escrito em 1964)
Autor: August Derleth
  

Livro "A Importância de Viver" de Lin Yutang (escrito em 1937):

"Thoreau é o mais chinês de todos os autores norte-americanos na sua visão total de vida, e, como sou chinês, sinto-me bastante semelhante a ele em espírito. Descobri-o há uns meses apenas, e o prazer da descoberta está ainda fresco no meu espírito. Poderia traduzir passagens inteiras de Thoreau para a minha língua natal e fazê-las passar como originais de um poeta chinês, sem despertar suspeita alguma."